sábado, 14 de maio de 2016

Sobre a dificuldade de rejeitar desafios

Antes que um de nós morra, gostaria de declarar sem margem para dúvidas a minha admiração por Miguel Esteves Cardoso. Numa entrevista à Paris Review, James Thurber disse que um dos maiores receios dos humoristas americanos de meados do século XX era dedicarem-se a trabalhar num texto durante três semanas e depois descobrirem que o grande Robert Benchley já tinha escrito sobre o mesmo assunto, e melhor, duas ou três décadas antes. Os humoristas portugueses do século XXI podem dizer a mesma coisa de Miguel Esteves Cardoso. É muito irritante. Acontece-me engraçar com uma particularidade qualquer da nossa língua e temer imediatamente duas coisas: que Miguel Esteves Cardoso já tenha falado dela; que Miguel Esteves Cardoso nunca tenha falado dela por não a achar suficientemente interessante. Registo, por exemplo, que não se costuma exarar nada noutro sítio que não seja uma acta. Ninguém exara coisas noutros documentos. “Exarei aqui uma lista de compras neste guardanapo” é uma frase que, muito provavelmente, nunca foi pronunciada. Do mesmo modo, as pessoas só envidam esforços. Pessoalmente, nunca envidei mais nada. Mas receio que Miguel Esteves Cardoso já tenha falado do mesmo e eu esteja a fazer figura de parvo. Devia envidar esforços para verificar se ele exarou uma coisa parecida algures, mas tenho preguiça. E medo.
Há uma moda que, por ser recente (pelo menos, só dei por ela agora), talvez lhe tenha escapado. Trata-se do lançamento de desafios. Todas as semanas, alguém me “lança um desafio”. Em noventa por cento dos casos, o lançador do desafio deseja, na verdade, um favor. Como pedir um favor envolve uma obrigação, opta por lançar um desafio, circunstância em que o obrigado passo a ser eu: devo ficar agradecido por ter sido resgatado à aborrecida modorra em que vivo, por intermédio de um interessante desafio. A palavra “desafio” já exprimiu uma impertinência (“Paula Cristina, não me desafies que eu sou tua mãe”) e até competição
(“O desafio entre Benfica e Sporting terminou com a vitória dos encarnados por 15-0”). Mas creio que só recentemente passou a ser um favor travestido. Creio que o objectivo é dificultar a recusa. Pode não haver tempo para fazer um favor, mas rejeitar um desafio é uma mariquice. Sabem muito, estes estilistas da língua.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

A indecência merece mais respeito

Um  amigo assusta-se e envia por sms: “fodasse!” Gente da internet indigna-se em caixas de comentários e grafa: “fodasse!” Por todo o lado, sempre que há um sobressalto, um lamento, uma discordância, alguém escreve: “fodasse!” Ora, a palavra “fodasse” não existe. Escrever “fodasse” é exprimir uma obscenidade e incorrer num erro ortográfico. É falta de educação e falta de educação. Na verdade, quem escreve “fodasse” não exprime obscenidade nenhuma. No máximo, trata-se da expressão de uma obscenidade na forma tentada. Estamos perante alguém que deseja dizer um palavrão e não consegue – o que prova que é preciso ter formação para ser malformado.
O corrector automático não ajuda. Quando se redige “fodasse”, as sugestões são: “rodasse”, “fadasse”, “focasse”, “fofasse” e “foçasse”. Até o improvável verbo fofar (“pôr fofos em”, segundo o dicionário) ocorre mais depressa ao corrector do que a rectificação que se exigiria. Não conheço quem alguma vez tenha conjugado o verbo fofar, nem imagino situação em que tal verbo possa dar jeito. Já aquilo que se pretende dizer quando se escreve “fodasse” é de uso quotidiano.
A culpa, como sempre, é do Ministério da Educação. Os programas estão desajustados da realidade, como se vê. Estudam-se verbos das três conjugações, mas ignora-se a forma reflexa de um dos verbos que mais vamos usar pela vida fora. O resultado é este: um número chocante de pessoas que não sabem exprimir-se convenientemente. É uma área do saber que não pode continuar a ser negligenciada.
Muitos dos textos que escrevo aqui na VISÃO são posteriormente incluídos em manuais escolares. Sei disso porque, com alguma frequência, os filhos de amigos meus vêm agradecer-me, com ironia bem azeda, determinado TPC em que tiveram de me ler e interpretar. Suspeito que esta crónica, logo uma das mais importantes, não será escolhida para figurar nas selectas. É pena. Os alunos saem mal preparados do liceu e da universidade. Eu identifiquei o problema e avancei aqui com um plano de estudos que procura solucioná-lo. Serei, com toda a certeza, ignorado. Acontece muitas vezes aos melhores e mais inovadores pedagogos. Mas esse é um pobre consolo, fodasse.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Restauração esquisita

É difícil almoçar ao domingo. Eu tento, mas não tenho conseguido. O almoço caiu em desuso e, neste momento, só se consegue comer em estrangeiro. Muitos restaurantes não têm almoço, têm brunch. O brunch, como o próprio nome indica, é uma mixórdia, na medida em que resulta da amálgama das palavras inglesas para pequeno-almoço e almoço. Essa salsada é evidente nas mesas de brunch. Iguarias que não foram feitas para conviver ocupam o mesmo espaço. Pataniscas de bacalhau fumegam por baixo de uma taça de cereais. Uma fila de iogurtes ladeia uma travessa de arroz de tomate. Papas de aveia borbulham junto de uma bandeja de sushi. No fim, não sei se almocei mal ou se tomei pequeno-almoço a mais. Sou um pisco ou um alarve? Tenho fome ou estou enfartado?
Quem está mais interessado em comer do que em reflectir sobre a existência (é quase sempre o meu caso) deve evitar o brunch. É uma refeição que, além disso, nos confronta com o pior que há no ser humano. Sabemos bem que, por muito civilizado que seja o meio em que vivemos, estamos sempre apenas a um passo da barbárie. O brunch é servido em regime de buffet, e as pessoas aproveitam o ambiente de permissividade para se comportarem como se não houvesse limites nem decência. Tenho visto empratamentos absolutamente chocantes. No passado domingo, uma selvagem levava no prato um filete de pescada, três panquecas, dois mini-hambúrgueres, carnes frias e um triângulo de queijo Camembert com compota de framboesa. Não era um repasto, era falta de educação empratada. Acompanhou com um copo de café com leite. Apresenta-se queixa ao empregado e ele diz que tem as mãos atadas. Que não pode limitar a liberdade das pessoas. Que podem fazer as misturas que entendem. Que a minha mulher tinha todo o direito de compor aquele prato.
Podem acusar-me de reaccionarismo gastronómico. Estou pronto para defender as minhas escolhas. Sou uma pessoa que gosta de pratos que podem designar-se por uma palavra apenas. Cozido. Dobrada. Chanfana. Rancho. A simplicidade breve da designação, que normalmente contrasta admiravelmente com a abundância do prato. Serei um bruto, talvez. Mas não aceito lições de civilidade destes mixordeiros de domingo, cujo prato parece o balde que a minha tia Isaura dava às galinhas.

domingo, 24 de abril de 2016

Racismo capilar

Segundo dizem, esta semana houve indignação do facebook. Vou tentar resumir o motivo da controvérsia – embora seja uma tarefa difícil, uma vez que o caso é extremamente complexo, como costumam ser todos os que ocupam os polemistas das redes sociais. O que se passou foi isto: Justin Bieber mudou de penteado. Houve brados, pranto e ranger de dentes, porque o cantor optou por um estilo capilar popularmente conhecido como “rastas”, e foi acusado de “apropriação cultural”. Não foi o primeiro. Há 15 dias, na Universidade de São Francisco, uma funcionária agarrou um aluno com o mesmo penteado e disse-lhe que ele não podia ter o cabelo assim: estava a apropriar-se da cultura africana. Segundo ela, só os negros podem usar aquele tipo de penteado. Este discurso fez-me lembrar um outro, que dizia: “Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural. O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu.” Uma moderna defensora das identidades culturais e um anúncio do Restaurador Olex: a mesma luta.
Uns meses antes, em Dezembro, na Universidade de Oberlin, no Ohio, um grupo de estudantes acusou a cantina de “apropriação cultural” porque o sushi servido constituía uma “representação incorrecta de pratos culturais” e ofendia uma tradição culinária ancestral. Com a mesma impecável superioridade moral, em Novembro, a associação de estudantes da Universidade de Ottawa suspendeu as aulas de yoga, por serem uma “inaceitável apropriação cultural de uma prática não-ocidental”. E umas décadas antes, no dia 18 de Agosto de 1941, trezentos jovens alemães conhecidos como “Swing Kids” foram presos pelos nazis por estarem a tocar música jazz, o que lhes era interdito por se tratar de “música de negros”. Mais uma vez, é impressionante como o moderno anti-racismo se parece com o velho racismo.
Esta compartimentação cultural levanta problemas interessantes. Uma vez que, ao que parece, o smoking foi inventado em Inglaterra em meados do século XIX, significa isso que um índio não pode usar um? Ou, já agora, um português? Mesmo entre os portugueses, é legítimo que um minhoto use um capote alentejano? Um cozinheiro trasmontano pode fazer chocos à algarvia? Um açoriano pode cantar o fado? À cautela, hei-de tentar saber qual é o traje típico de São Sebastião da Pedreira e vou comprar meia dúzia.
Os antigos activistas do movimento dos direitos civis batiam-se pelo fim da segregação racial e pela igualdade de direitos. Os modernos fiscalizam o penteado de um adolescente. Imagino que Rosa Parks e Martin Luther King ficariam muito, muito orgulhosos.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A LESTE DO PARAÍSO FISCAL

Inocente leitor, temos de falar. Talvez seja melhor sentar--se, porque o abalo que vai sentir pode fazer-lhe mal. Passa-se o seguinte: ao que parece, Vladimir Putin não é uma pessoa completamente impoluta. E não é tudo, leitor amigo. Segundo dizem, há pessoas muito ricas que recorrem a estratagemas manhosos para pagar menos impostos. Juro que é verdade. Descobriu-se esta semana. E mais: certos bancos não se importam com a origem do dinheiro. Venha de onde vier, escondem-no, lavam-no, lucram com isso.
O que os chamados Panama Papers revelaram não é do âmbito da finança, é do âmbito da teologia: há paraísos fiscais e infernos sociais. O funcionamento é ligeiramente diferente do habitual. Quem se porta mal vai para o paraíso. Quem se porta bem (normalmente, porque não tem outra alternativa), vive no inferno. E tem de se sustentar a si mesmo e ao estilo de vida dos que vivem no paraíso. Talvez seja tempo de actualizar aquela frase antiga: na sociedade capitalista nada é certo, excepto a morte e a fuga aos impostos. Não pagar impostos é um sinal de egoísmo – e, por isso, de uma certa pobreza de espírito.
É justo, portanto, que o paraíso fiscal seja destes pobres de espírito. Os apenas pobres ficam no inferno social, para aprenderem a não ser parvos. Os habitantes do paraíso vêem a sua inteligência premiada: não só não pagam impostos como, frequentemente, são proprietários de empresas que beneficiam de subsídios – por exemplo, para não tomarem uma atitude chamada “deslocalização”. Não pagam impostos e recebem dinheiro proveniente de impostos. Acabam por fazer tanto ou mais dinheiro com os impostos como o Estado. É como se um cliente chegasse a uma loja e pedisse um desconto. Sobre o desconto, um preço de amigo. Sobre o desconto e o preço de amigo, uma atençãozinha. E acabasse por receber dinheiro para levar o produto.
Depois dos Panama Papers, creio que nada mais voltará a ser o mesmo. Estas empresas fictícias vão mesmo ter de se retirar do Panamá e arranjar moradas inexistentes nas Ilhas Caimão, para aprenderem. Espera-se que mudem de comportamento e nunca mais se deixem apanhar.

domingo, 10 de abril de 2016

Análise e interpretação de uma arma

 Na sequência de uma excelente iniciativa levada a cabo por uma cadeira em 1968, um grupo de militares derrubou finalmente o Estado Novo a 25 de Abril de 1974. Usaram espingardas, chaimites e fragatas. Esta semana, um tribunal angolano condenou 17 jovens por planearem derrubar o governo. Quando foram capturados, os revoltosos estavam na posse do seguinte armamento de guerra: um livro.
Por terem lido e discutido um livro intitulado “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura”, os 17 perigosos leitores foram condenados a penas de prisão entre os dois anos e três meses e os oito anos e meio. É possível que, só por ter acabado de escrever o título, eu me arrisque a duas semanas num presídio de Luanda, se alguma vez visitar Angola. O livro foi lido na íntegra no tribunal, o que constitui uma imprudência incompreensível. Para julgar réus que tinham lido e discutido um livro, o juiz decidiu ler e discutir o livro. É o mesmo que, para julgar devidamente um assassino, assassinar alguém em tribunal. Na verdade, talvez não seja bem a mesma coisa porque, ao que se diz, em Angola certos homicídios são menos graves do que certas sessões de leitura.
Não sou especialista, mas parece-me que “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura” inaugura um novo subgénero, dentro da literatura policial. Nos livros policiais tradicionais, o livro contra a história de um crime e o criminoso acaba preso. Neste livro, é quem o lê que comete o crime e acaba na prisão. Não creio que tenha futuro, enquanto género literário, mas é um daqueles livros dos quais se pode dizer, sem dúvida nenhuma, que mudam a vida do leitor. Nem todas as obras se podem gabar do mesmo.
No final do julgamento, os leitores delinquentes foram acusados de serem uma associação de malfeitores que pretendia tomar o poder em Angola. Arrepia só de pensar. Imaginem uma associação de malfeitores a governar Angola. Provavelmente, um governo composto por gente dessa abusaria do poder e apropriar-se-ia das riquezas do País. Depois, talvez as distribuísse por um conjunto de generais amigos e pelos próprios filhos. Havia de perseguir e matar opositores políticos, falsificar cadernos eleitorais e viciar eleições. Talvez fosse mesmo capaz de instituir um regime no qual ler um livro fosse um crime punível com pena de prisão. Ainda bem que conseguiram pará-los a tempo. O povo angolano livrou-se de boa.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

CORRUPIÇÃO: MANUAU DJI INSTRUÇÕESS

A presidente é acusada de manipular as contas do Estado. O ex-presidente é acusado de branqueamento de capitais. O candidato derrotado na corrida à presidência é acusado de ter recebido luvas. O presidente do parlamento é acusado de ter cinco milhões não declarados na Suíça. Encabeça a comissão que avalia a destituição da presidente ao mesmo tempo que corre contra si mesmo um processo de destituição. E têm nomes como Dilma, Lula, Aécio, Delcídio. Um dos juízes do caso chama-se Itagiba Catta Preta Neto. O mais estranho no meio disto tudo é o Brasil ser o país do carnaval. O carnaval é um breve momento de loucura isolado no meio do quotidiano sério. Para desenjoar da austeridade do mundo, há uma semana em que tudo fica às avessas. Ora, no Brasil, a regra é estar tudo às avessas. O carnaval é redundante. O Brasil devia ser o país da Quaresma.

Resumindo: o antigo presidente, a actual presidente e o hipotético futuro presidente são investigados pela justiça. Os brasileiros sabem que quem governou, governa e governará é suspeito de ter cometido ilegalidades. Na política brasileira, currículo diz-se "cadastro".
Entretanto, para fugir à justiça, o antigo presidente aceitou o cargo de ministro. Finalmente, um bom exemplo. Os ministros são muitas vezes criticados por irem para o governo com o objectivo de melhorarem a sua própria qualidade de vida. Lula aceita ser ministro para evitar que lhe ofereçam uma morada gratuita, com serviço de dormida e três refeições por dia. Uma lição de abnegação.
Enquanto decorre a luta entre os corruptos que governam e os que desejam governar, os brasileiros interrogam-se acerca da razão pela qual o seu país é o que é. Sem querer ofender o povo irmão, creio que o que se passa é o seguinte: eles são mais ou menos iguais a nós.
Demos novos mundos ao mundo e novas vigarices à vigarice. Nunca fui capaz de verificar esta história, mas dizem que "pimenta", na Índia, se diz "putpari" porque um navegador português terá recorrido a uma expressão que produz um som muito semelhante na primeira vez que provou a especiaria. É um lindo vocábulo que teremos deixado aos indianos, e eles souberam afeiçoá-lo ao seu gosto. No Brasil, deixámos alguma malandragem, e eles desenvolveram-na admiravelmente. Talvez mais ninguém consiga percebê-lo, mas nós sabemos reconhecer vigarice portuguesa. O que se passa é que o Brasil é um Portugal aditivado. Nós somos 10 milhões, eles são 200. O leitor que faça as contas. Sabe o que é viver em Portugal. Agora multiplique por 20. Assustador, não é?
Talvez seja mesmo caso para dizer putpari.