domingo, 24 de abril de 2016

Racismo capilar

Segundo dizem, esta semana houve indignação do facebook. Vou tentar resumir o motivo da controvérsia – embora seja uma tarefa difícil, uma vez que o caso é extremamente complexo, como costumam ser todos os que ocupam os polemistas das redes sociais. O que se passou foi isto: Justin Bieber mudou de penteado. Houve brados, pranto e ranger de dentes, porque o cantor optou por um estilo capilar popularmente conhecido como “rastas”, e foi acusado de “apropriação cultural”. Não foi o primeiro. Há 15 dias, na Universidade de São Francisco, uma funcionária agarrou um aluno com o mesmo penteado e disse-lhe que ele não podia ter o cabelo assim: estava a apropriar-se da cultura africana. Segundo ela, só os negros podem usar aquele tipo de penteado. Este discurso fez-me lembrar um outro, que dizia: “Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural. O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu.” Uma moderna defensora das identidades culturais e um anúncio do Restaurador Olex: a mesma luta.
Uns meses antes, em Dezembro, na Universidade de Oberlin, no Ohio, um grupo de estudantes acusou a cantina de “apropriação cultural” porque o sushi servido constituía uma “representação incorrecta de pratos culturais” e ofendia uma tradição culinária ancestral. Com a mesma impecável superioridade moral, em Novembro, a associação de estudantes da Universidade de Ottawa suspendeu as aulas de yoga, por serem uma “inaceitável apropriação cultural de uma prática não-ocidental”. E umas décadas antes, no dia 18 de Agosto de 1941, trezentos jovens alemães conhecidos como “Swing Kids” foram presos pelos nazis por estarem a tocar música jazz, o que lhes era interdito por se tratar de “música de negros”. Mais uma vez, é impressionante como o moderno anti-racismo se parece com o velho racismo.
Esta compartimentação cultural levanta problemas interessantes. Uma vez que, ao que parece, o smoking foi inventado em Inglaterra em meados do século XIX, significa isso que um índio não pode usar um? Ou, já agora, um português? Mesmo entre os portugueses, é legítimo que um minhoto use um capote alentejano? Um cozinheiro trasmontano pode fazer chocos à algarvia? Um açoriano pode cantar o fado? À cautela, hei-de tentar saber qual é o traje típico de São Sebastião da Pedreira e vou comprar meia dúzia.
Os antigos activistas do movimento dos direitos civis batiam-se pelo fim da segregação racial e pela igualdade de direitos. Os modernos fiscalizam o penteado de um adolescente. Imagino que Rosa Parks e Martin Luther King ficariam muito, muito orgulhosos.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A LESTE DO PARAÍSO FISCAL

Inocente leitor, temos de falar. Talvez seja melhor sentar--se, porque o abalo que vai sentir pode fazer-lhe mal. Passa-se o seguinte: ao que parece, Vladimir Putin não é uma pessoa completamente impoluta. E não é tudo, leitor amigo. Segundo dizem, há pessoas muito ricas que recorrem a estratagemas manhosos para pagar menos impostos. Juro que é verdade. Descobriu-se esta semana. E mais: certos bancos não se importam com a origem do dinheiro. Venha de onde vier, escondem-no, lavam-no, lucram com isso.
O que os chamados Panama Papers revelaram não é do âmbito da finança, é do âmbito da teologia: há paraísos fiscais e infernos sociais. O funcionamento é ligeiramente diferente do habitual. Quem se porta mal vai para o paraíso. Quem se porta bem (normalmente, porque não tem outra alternativa), vive no inferno. E tem de se sustentar a si mesmo e ao estilo de vida dos que vivem no paraíso. Talvez seja tempo de actualizar aquela frase antiga: na sociedade capitalista nada é certo, excepto a morte e a fuga aos impostos. Não pagar impostos é um sinal de egoísmo – e, por isso, de uma certa pobreza de espírito.
É justo, portanto, que o paraíso fiscal seja destes pobres de espírito. Os apenas pobres ficam no inferno social, para aprenderem a não ser parvos. Os habitantes do paraíso vêem a sua inteligência premiada: não só não pagam impostos como, frequentemente, são proprietários de empresas que beneficiam de subsídios – por exemplo, para não tomarem uma atitude chamada “deslocalização”. Não pagam impostos e recebem dinheiro proveniente de impostos. Acabam por fazer tanto ou mais dinheiro com os impostos como o Estado. É como se um cliente chegasse a uma loja e pedisse um desconto. Sobre o desconto, um preço de amigo. Sobre o desconto e o preço de amigo, uma atençãozinha. E acabasse por receber dinheiro para levar o produto.
Depois dos Panama Papers, creio que nada mais voltará a ser o mesmo. Estas empresas fictícias vão mesmo ter de se retirar do Panamá e arranjar moradas inexistentes nas Ilhas Caimão, para aprenderem. Espera-se que mudem de comportamento e nunca mais se deixem apanhar.

domingo, 10 de abril de 2016

Análise e interpretação de uma arma

 Na sequência de uma excelente iniciativa levada a cabo por uma cadeira em 1968, um grupo de militares derrubou finalmente o Estado Novo a 25 de Abril de 1974. Usaram espingardas, chaimites e fragatas. Esta semana, um tribunal angolano condenou 17 jovens por planearem derrubar o governo. Quando foram capturados, os revoltosos estavam na posse do seguinte armamento de guerra: um livro.
Por terem lido e discutido um livro intitulado “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura”, os 17 perigosos leitores foram condenados a penas de prisão entre os dois anos e três meses e os oito anos e meio. É possível que, só por ter acabado de escrever o título, eu me arrisque a duas semanas num presídio de Luanda, se alguma vez visitar Angola. O livro foi lido na íntegra no tribunal, o que constitui uma imprudência incompreensível. Para julgar réus que tinham lido e discutido um livro, o juiz decidiu ler e discutir o livro. É o mesmo que, para julgar devidamente um assassino, assassinar alguém em tribunal. Na verdade, talvez não seja bem a mesma coisa porque, ao que se diz, em Angola certos homicídios são menos graves do que certas sessões de leitura.
Não sou especialista, mas parece-me que “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura” inaugura um novo subgénero, dentro da literatura policial. Nos livros policiais tradicionais, o livro contra a história de um crime e o criminoso acaba preso. Neste livro, é quem o lê que comete o crime e acaba na prisão. Não creio que tenha futuro, enquanto género literário, mas é um daqueles livros dos quais se pode dizer, sem dúvida nenhuma, que mudam a vida do leitor. Nem todas as obras se podem gabar do mesmo.
No final do julgamento, os leitores delinquentes foram acusados de serem uma associação de malfeitores que pretendia tomar o poder em Angola. Arrepia só de pensar. Imaginem uma associação de malfeitores a governar Angola. Provavelmente, um governo composto por gente dessa abusaria do poder e apropriar-se-ia das riquezas do País. Depois, talvez as distribuísse por um conjunto de generais amigos e pelos próprios filhos. Havia de perseguir e matar opositores políticos, falsificar cadernos eleitorais e viciar eleições. Talvez fosse mesmo capaz de instituir um regime no qual ler um livro fosse um crime punível com pena de prisão. Ainda bem que conseguiram pará-los a tempo. O povo angolano livrou-se de boa.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

CORRUPIÇÃO: MANUAU DJI INSTRUÇÕESS

A presidente é acusada de manipular as contas do Estado. O ex-presidente é acusado de branqueamento de capitais. O candidato derrotado na corrida à presidência é acusado de ter recebido luvas. O presidente do parlamento é acusado de ter cinco milhões não declarados na Suíça. Encabeça a comissão que avalia a destituição da presidente ao mesmo tempo que corre contra si mesmo um processo de destituição. E têm nomes como Dilma, Lula, Aécio, Delcídio. Um dos juízes do caso chama-se Itagiba Catta Preta Neto. O mais estranho no meio disto tudo é o Brasil ser o país do carnaval. O carnaval é um breve momento de loucura isolado no meio do quotidiano sério. Para desenjoar da austeridade do mundo, há uma semana em que tudo fica às avessas. Ora, no Brasil, a regra é estar tudo às avessas. O carnaval é redundante. O Brasil devia ser o país da Quaresma.

Resumindo: o antigo presidente, a actual presidente e o hipotético futuro presidente são investigados pela justiça. Os brasileiros sabem que quem governou, governa e governará é suspeito de ter cometido ilegalidades. Na política brasileira, currículo diz-se "cadastro".
Entretanto, para fugir à justiça, o antigo presidente aceitou o cargo de ministro. Finalmente, um bom exemplo. Os ministros são muitas vezes criticados por irem para o governo com o objectivo de melhorarem a sua própria qualidade de vida. Lula aceita ser ministro para evitar que lhe ofereçam uma morada gratuita, com serviço de dormida e três refeições por dia. Uma lição de abnegação.
Enquanto decorre a luta entre os corruptos que governam e os que desejam governar, os brasileiros interrogam-se acerca da razão pela qual o seu país é o que é. Sem querer ofender o povo irmão, creio que o que se passa é o seguinte: eles são mais ou menos iguais a nós.
Demos novos mundos ao mundo e novas vigarices à vigarice. Nunca fui capaz de verificar esta história, mas dizem que "pimenta", na Índia, se diz "putpari" porque um navegador português terá recorrido a uma expressão que produz um som muito semelhante na primeira vez que provou a especiaria. É um lindo vocábulo que teremos deixado aos indianos, e eles souberam afeiçoá-lo ao seu gosto. No Brasil, deixámos alguma malandragem, e eles desenvolveram-na admiravelmente. Talvez mais ninguém consiga percebê-lo, mas nós sabemos reconhecer vigarice portuguesa. O que se passa é que o Brasil é um Portugal aditivado. Nós somos 10 milhões, eles são 200. O leitor que faça as contas. Sabe o que é viver em Portugal. Agora multiplique por 20. Assustador, não é?
Talvez seja mesmo caso para dizer putpari.